Primeira parte

por Jonas Ribeiro

Existe hoje uma divisão clara da cobertura jornalística, principalmente televisiva, do cenário político do Brasil. Essa cobertura se divide entre as emissoras que preferem fazer uma abordagem mais branda do governo brasileiro e outras, principalmente a Rede Globo, que atuam expondo mais as contradições do governo e sua atuação diante de grave crise sanitária, primeiramente, e crise econômica que já existia e foi agravada. Essa questão me levou a uma breve pesquisa sobre a relação imprensa/governo. Com toda certeza podemos dizer que em muitos momentos da nossa história os interesses da imprensa do país se confundem com os do próprio governo, situação gerada pelo autoritarismo em caráter excepcional ou interesse mútuo, podendo essas situações ocuparem mesmo período histórico. São alguns desses momentos que pretendo discorrer neste texto que será dividido em duas partes. Além de tentar entender num segundo momento a tentativa de enfraquecimento da mídia tradicional brasileira, não incentivando uma nova legislação, por exemplo, como foi feito em alguns países como a Argentina através da Ley de Médios[i], mas no estímulo, principalmente financeiro, a emissoras apoiadoras do atual governo.

Em 1808, com a chegada e instalação da família real no Brasil, se criou o primeiro mecanismo de regulação e implantação de informação institucional no país, a Imprensa Régia, atual Imprensa Nacional. A Imprensa Régia instaurou o primeiro jornal na nova terra, a Gazeta do Rio de Janeiro, que basicamente informava sobre assuntos relacionados ao Império. Também em 1808, nasceu aquele que é considerado o primeiro jornal privado brasileiro, o Correio Brasiliense, de Hipólito da Costa que chegou a defender na época uma monarquia parlamentarista, o que seria um afronte à monarquia brasileira. Para driblar a censura da época, o jornal era impresso em Londres e enviado para o Brasil. Inicialmente Hipólito da Costa era crítico ferrenho do império luso brasileiro, direcionava os ataques a ministros e burocratas da corte poupando a figura do monarca Dom João VI. Até que em 1812 a Coroa fez um acordo secreto com Hipólito a fim de patrocinar sua figura e o próprio jornal em troca de críticas amenas à monarquia. Segundo o historiador Oliveira Lima, Hipólito “se prestava a moderar seus arrancos de linguagem a troco de considerações, de distinções e mesmo de patrocínio oficial”. Talvez tenha nascido nesse momento o início de uma relação íntima que se repetiria em vários momentos da história do país, uma relação de poder e controle narrativo.

Contrariando grande período de tempo em que Dom Pedro II esteve à frente do país e a imprensa gozava de relativa liberdade e tranquilidade, o início da República foi de grande turbulência e perseguição à imprensa, quando sedes de jornais eram atacados, jornalistas perseguidos e até mortos. A censura se intensificou durante toda república velha. Com exceções de alguns jornais que se modernizavam, grande parte dos jornais eram militantes influenciados pelos imigrantes que aqui chegavam. Até que chegou ao poder Getúlio Vargas e com ele um capítulo especial da relação imprensa e governo.

Com exceção do início da chamada Era Vargas; quando a imprensa brasileira, em particular a paulista que ainda lutava pelos interesses dos cafeicultores, era resistente ao presidente provisório, durante todo o resto do período ditatorial a imprensa foi sufocada, seja por interesse em comum, censura ou repressão. Durante a Era Vargas foi criado o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), que além de censurar a imprensa tinha o papel principal de promover conteúdos que convergiam com ações e ideias do governo de Getúlio Vargas. Mas o fato mais curioso da relação de Getúlio com a imprensa foi na sua volta, nas eleições em 1950.

Depois de retirado do poder em 1945, Getúlio Vargas ficou recluso até às eleições de 1950. Foi nesse período que conheceu Samuel Wainer, um jornalista de origem judaica que durante muito tempo teve sua vida ligada ao poder público. Durante o período mencionado, Getúlio só dava entrevistas a Samuel e, em 1949, confessou ao jornalista que disputaria a eleição de 1950. Depois de eleito, Getúlio era bastante perseguido pela imprensa, que já desfrutava de uma liberdade que a muito não tinha. Foi quando o então presidente teve uma ideia para trazer a imprensa para seu lado: a proposta de criação de um jornal para Samuel Wainer. Em relato autobiográfico do próprio jornalista, Getúlio lhe disse: ” por que tu não fazes um jornal?”. Segundo palavras da jornalista Joëlle Rouchou, “a proposta era um prêmio pela fidelidade na cobertura ou Getúlio precisava de Samuel a seu lado com um jornal que divulgasse seu governo, já que havia um boicote dos demais?”. Com essa ideia, em vez de submeter a imprensa à censura – coisa não possível naquele momento por inúmeras razões[i]– o presidente teria um veículo para projeção de sua figura, seu governo e suas ideias. Foi aí que nasceu o jornal Última Hora de Samuel Wainer, que se tornou um alento em território inimigo. Essa ação mudou as regras informais de convivência de governos com a mídia brasileira, a imprensa passou a ser tratada não com repressão mas controlada com ideologia em comum ou suporte financeiro. 

No próximo texto vou falar um pouco sobre a imprensa na ditadura militar de 1964, a relação da Globo com a ditadura (se existiu), os anos que se passaram, a discussão sobre regulação da mídia, o governo do PT até chegar na relação da grande mídia tradicional com o governo Bolsonaro.

[i] A Ley de Medios argentina de 2009, entrou em vigor no governo Cristina Kirchner com o objetivo de substituir uma lei da ditadura militar argentina que, para muitos, permitiu o surgimento de conglomerados de mídia no país. O grupo Clarín, que talvez tenha sido o principal beneficiado no regime argentino, controlava até 2009 cerca de 31% da circulação dos jornais, 40,5% da receita da TV aberta e 23,2% da TV paga no país.

[i] Havia à época uma resistência da imprensa a Getúlio Vargas. O presidente sofria muitas críticas nos jornais brasileiros que tinham uma péssima experiência com a Era Vargas. A jornalista Joëlle Rouchou chegou a indagar se a proposta de criação do jornal Última Hora seria uma forma de divulgar seu governo já que sofria o presidente de boicote dos demais jornais.

Referências:

CARVALHO, Kátia de. Imprensa e informação no Brasil, século XIX. Ciência da Informação, 1996.

DINIZ, Lilia. 200 anos da imprensa brasileira: Correio Braziliense e Hipólito da Costa. Observatório da Imprensa, 2008. Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/e-noticias/200_anos_da_imprensa_brasileira_correio_braziliense_e_hipolito_da_costa/

GOMES, Laurentino. 1808: Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. São Paulo: Planeta, 4° edição, 2007.

ROUCHOU, Joëlle. Samuel Wainer: Mémorias entre jornalismo e política. In: Histórias e Imprensa: Representações Culturais e Políticas de Poder. Rio de Janeiro: DPA, 2006.