
por Jonas Ribeiro
A formação política de um indivíduo até o advento da internet geralmente se dava através da família, amigos, universidade, propaganda e principalmente por meios de comunicação como a TV e o rádio. Muitos dos momentos mais marcantes da história política brasileira teve início com grandes campanhas de propaganda ideológica. A ascensão de Getúlio Vargas, a ditadura militar de 64 e, mais recentemente, a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, são exemplos na política nacional em que houve uma campanha no redirecionamento do pensamento político do cidadão brasileiro. Este blog já tratou um pouco dos acontecimentos citados em alguns momentos no texto “A propensão ao autoritarismo”. No caso da eleição de Jair Bolsonaro, essa campanha usou artifícios ainda inexplorados massivamente em território brasileiro. O que este texto pretende acrescentar são os detalhes de alguns desses artifícios e como isso reflete na ótica política do cidadão brasileiro fortemente influenciado pela internet, esta ferramenta que absorveu para si a atenção quase que exclusiva das pessoas.
A primeira vez que se deu atenção à influência da internet e de suas ferramentas na política foi em 2015, durante as eleicões presidenciais norte-americanas, quando surpreendentemente emergiu do Partido Republicano a figura controversa de Donald Trump, bilionário do ramo de hotéis e estrela da TV. Trump passou em poucos meses de “azarão” a candidato do Partido Republicano após prévias conquistadas com relativa facilidade. Para isso, Trump conseguiu aliar sua fama alcançada principalmente com a TV à mudança que passou o mundo nesse período, com o uso cada vez mais prolongado das redes sociais e, consequentemente, da internet. Segundo o Facebook, 184 milhões de pessoas acessaram a plataforma todos os dias nos EUA em 2018, por exemplo. Os usuários desta rede social ultrapassou no mundo o exorbitante número de 2 bilhões de pessoas em 2020. Trump se aproveitou desse contexto e engendrou complexa campanha de participação na grande mídia e na internet através de polêmicas e, principalmente, de notícias falsas, as chamadas fake news.

Fake news são boatos ou notícias mentirosas com tom sensacionalista que são propagadas em massa principalmente no ambiente virtual a fim de obter algum ganho político ou financeiro.
Primeiro é importante entender porque as fake news impactam tão grandiosamente na vida das pessoas e no mundo político. Sabemos que as redes sociais aproximam as pessoas principalmente com base nos seus gostos e preferências pessoais, quanto maior o tempo gasto nessas plataformas mais essas preferências ficam evidentes para as ferramentas e principalmente para quem faz com que elas se sustentem, os anúncios publicitários. As redes sociais conseguem essa aproximação de pessoas com os mesmos gostos através de uma seleção feita pelos chamados “algoritmos”. Os algortimos são instruções ou códigos que indicam o conteúdo mais relevante para alguém. Essa característica cria um fenômeno chamado de ” filtro bolha” que alimenta as suas redes sociais e impede que conteúdos que não estejam de acordo com o seu pensamento ou suas predileções cheguem ao seu feed de notícias do Facebook, por exemplo. Foi o que, segundo os jornais The New York Tymes e The Guardian, aconteceu nas eleições norte-americanas de 2016.
Nesse escândalo, soube-se que Donald Trump contratou uma empresa de mineração e análise de dados chamada Cambridge Analytica que usou, segundo o Facebook, sem consentimento dados de mais de 87 milhões de usuários da plataforma para obtenção de vantagem política nas eleições presidenciais. Essas vantagens eram obtidas principalmente por alimentação de fake news sob medida nas redes sociais de eleitores de perfil conservador. Dois exemplos dessas notícias são a associação de Hillary Clinton (adversária de Trump nas eleições) ao Estado Islâmico e o apoio do Papa Francisco à Trump, bastante difundida entre os eleitores latinos do republicano. É importante resaltar que os boatos sempre existiram principalmente no âmbito político, mas a dimensão que a internet deu a isso gerou um descontrole e massificação jamais visto. Sobre esse diferencial da internet, Amaral e Soares retomam Wardle e Derakhshan:
A internet e os mídias sociais alteraram significativamente a forma como
Amaral e Santos (2019 p. 76)
a informação é produzida e distribuída. Neste sentido, o atual ecossistema
mediático é híbrido e apresenta características muito específicas como fácil
acesso às tecnologias de edição, publicação e distribuição de conteúdo; consumo de informação público registado pelos media sociais; velocidade na disseminação da informação; informação transmitida em tempo real pelos pares,
o que confere credibilidade e maior confiança na partilha com outros pares.
Tendo os EUA como exemplo, nos deparamos com esses problemas nas eleições presidenciais por aqui em 2018, que culminou na vitória de Jair Bolsonaro. Assim como Trump, Bolsonaro procurou se diferenciar da figura do político tradicional, mesmo sendo ele um deputado com mais de 20 anos de vida pública. Mas a ferramenta usada para a disseminação de notícias falsas em larga escala por aqui foi o aplicativo de mensagens Whatsapp. Segundo dados da empresa ComScore, enquanto que nos EUA 95% das pessoas que usam aplicativos de mensagens diretas adotam o Facebook Messenger, esse número se inverte no Brasil e na América Latina com mais de 90% dos usuários sendo do Whatsapp. A massificação em um país com mais de 136 milhões de usuários segundo a Agência Brasil de Comunicação (2019) ajudou a criar um público fiel de apoio ao atual presidente da república, os denominados bolsonaristas, que adotam como eles mesmos dizem um perfil conservador nos costumes e liberal na economia.
Esse perfil tornou possível a produção de fake news contra o adversário principal de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018, Fernando Haddad e principalmente contra o seu partido, o Partido dos Trabalhadores. Em uma famosa noticía falsa, foi ligada à Haddad a autoria de um livro com um texto sobre incesto. Outra que obteve bastante apelo no público bolsonarista foi a tentativa de ligar Adélio Bispo, o homem que esfaqueou Bolsonaro, ao ex-presidente Lula, que apoiava a candidatura de Haddad naquele pleito. A fake news mais famosa e de maior impacto entre o público brasileiro talvez tenha sido o “kit gay”. Tratava-se, segundo esses boatos, de uma tentativa do PT de introduzir nas escolas a “ideologia de gênero” e “sexualizar as crianças do país”.
No livro “Sobrevivendo nas Redes”, feito pela Plataforma Democrática em colaboração com outros institutos encontramos dicas úteis para lidarmos com as variadas notícias e textos da internet, são eles:
- Desconfie das informações que confirmam sua visão de mundo.
- Não divulgue uma informação se não tem certeza de que é verdadeira.
- Saiba que, se a informação é importante, urgente e fundamentada, em poucos minutos estará em vários veículos.
- Lembre que devem constar da notícia pelo menos a data, o autor, além das fontes das informações que veicula.
- Conheça o histórico dos veículos.
- Verifique o nome dos sites.
- Confira as datas.
- Leia as seções “Ver histórico” e “Discussão” quando consultar a Wikipedia.
- Confira a relação da manchete com o texto das matérias que você lê na Internet.
Referências:
ANGST, Flávia Holz e BOGLER, Carolina Marcelli. Fake News: A influência nas eleições norte-americanas e as medidas preventivas norteadoras das eleições brasileiras de 2018. Disponível :https://core.ac.uk/download/pdf/229767389.pdf. Acesso em: 03/06/2021
AMARAL, Inês e SANTOS, Sofia José. Algoritmos e Redes sociais: A propagação das fake news na era da pós-verdade. In: As fake news e a nova ordem (des)informativa na era da pós-verdade, Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2019.
G1. Notícias falsas sobre eleição nos EUA têm mais alcance que notícias reais. Disponível em: http://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2016/noticia/2016/11/noticias-falsas-sobre-eleicoes-nos-eua-superam-noticias-reais.html. Acesso em 03/06/2021.
LEVITSKY, Steven e ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem, Rio de Janeiro: Zahar, vol. 1, 2018.
ORTELLADO, Pablo. et al. Sobrevivendo nas Redes. São Paulo: Plataforma Democrática, 2018. Disponível em: https://fundacaofhc.org.br/files/sobrevivendo%20nas%20redes.pdf. Acesso em: 03/06/2021
