Por Jonas Ribeiro

A Era Napoleônica (1799-1815) foi responsável principalmente por consolidar as bases de sustentação da burguesia entre os países europeus estabelecendo, dessa forma, um marco histórico que compreende o fim do Antigo Regime. Portanto, como sabemos, a ascensão da burguesia no continente europeu está diretamente relacionada com o fim ou enfraquecimento da monarquia nesse continente. A ação expansiva do Imperador Napoleão Bonaparte de destituir monarcas pelo continente curiosamente colaborou, embora nesse caso indiretamente, para o surgimento de uma família real do outro lado do oceano, a família real brasileira. A fuga da família real portuguesa para o Brasil por conta das invasões napoleônicas permitiu elevar o Brasil à condição de reino unido e acelerar um processo de independência que viria em 1822. Com a exigência portuguesa do retorno de Dom João VI para a europa, o Brasil viu-se ameaçado a voltar a condição de colônia e, sem alternativa, decidiu realizar o processo de independência. Ao contrário de outros países latinos, onde a república foi instaurada logo após a independência, o Brasil decidiu adotar a monarquia como regime e Dom Pedro I, filho de Dom João VI, foi coroado imperador.

O período em que Dom Pedro I esteve a frente do país é chamado de Primeiro Reinado. Nesse ínterim, foi promulgada a primeira constituição brasileira que, além de manter a estrutura socioeconômica do país, mostrou uma face autoritária ao permitir plenos poderes ao imperador. A constituição de 1824 garantiu a hereditariedade como continuidade para o poder do país. Mas o período imperial de maior relevância foi o Segundo Reinado, período em que Dom Pedro II se tornou regente do império brasileiro após o chamado “golpe da maioridade”, onde o imperador decide assumir o trono com apenas 14 anos de idade. Nesse período, o Brasil se consolidou como nação e conseguiu preservar seu território sufocando diversas tentativas de separação ou revoltas iniciadas principalmente no período regencial. A política interna se caracterizou pela consolidação das elites econômicas, embora tenham se dividido em correntes políticas diferentes.

Dom Pedro II ficou no poder durante 49 anos, período que compreende o segundo reinado da monarquia brasileira. Como muitos governantes que ficam tanto tempo no poder é comum o desgaste com a figura ou com seu modelo de governança. No entanto, nesse caso, o mais cansado era o próprio Dom Pedro II, que não parecia ter o dom de líder de uma nação: “Nasci para consagrar-me às letras e às ciências, e, a ocupar posição política, preferiria a de presidente da República ou de ministro à de imperador”. Tanto que, sabendo do golpe que era iminente, resignou-se e não resistiu ao avanço do exército mesmo tendo condições de fazê-lo. Apesar do descontentamento do exército brasileiro, principalmente da falta de reconhecimento após a Guerra do Paraguai, da elite modernista e principalmente da conjuntura sócio-cultural, o monarca detinha grande popularidade diante da população do país. Mesmo assim, com meandros que viriam a ser regra na política brasileira, a república foi instaurada e os integrantes da família real foram exilados até 1920.

Mas no ano de 1993 foi convocado um plebiscito para escolhermos a forma e o sistema que deveriam ser aplicados no país a partir daquele momento. Como já sabemos, a república foi escolhida como forma de governo com mais de 44 milhões de votos em oposição à monarquia.

Porém o que reacendeu a discussão sobre a família real foram os mais de 6 milhões de votos para a monarquia. Segundo o tetraneto de Dom Pedro II, Bertrand Maria José Pio Januário Miguel Rafael Gonzaga de Orléans e Bragança, ” depois do plebiscito, ela (a monarquia) passou a ser vista como uma alternativa e no período recente como a solução”. Desde então tomou força um movimento que faz campanha para a volta da monarquia no Brasil. Em tempos de internet e redes sociais, essa campanha tomou grande folêgo e conquista cada vez mais simpatizantes. Para essas pessoas a república não deu certo e a maneira de consertar as coisas é voltar com o regime monárquico no país. Dom Bertrand, aliás, como é chamado pela sua origem nobre, é um dos líderes do movimento pela restituição da monaquia. Autor do livro “Psicose Ambientalista” que nega as consequências da ação do Homem na natureza e é sucesso entre a direita brasileira, Bertrand personaliza entre os saudosistas da monarquia a figura do monarca que o país aboliu a mais de 130 anos. Ele é a figura que inspira membros do parlamento brasileiro que simpatizam com a ideia monarquista, como a deputada Carla Zambelli, declaradamente monarquista.

O jeito que a família real brasileira encontrou de participar da atual vida política do país foi se inserir no campo das ideias conservadoras que embasam muitos parlamentares simpatizantes do movimento, são os integrantes da bancada monarquista. Esses parlamentares foram eleitos impulsionados pela conjuntura política do país e representam valores conservadores como defesa da família tradicional em oposição aos direitos do público LGBT, a condenação do aborto em qualquer situação e críticas às políticas ambientais. Mas não apenas isso, como não poderia deixar de ser, as vozes pela restituição embalaram o discurso anticorrupção e a luta contra o comunismo petista, seja lá o que isso possa significar. Nesse sentido, a crítica monarquista ao Partido dos Trabalhadores corrobora com a necessidade da monarquia como solução para o país. Sobre isso Bertrand comentou: “a monarquia garante unidade, estabilidade e continuidade. O Brasil está com saudade de um regime que faça à nação o que uma nação deve ser: uma grande família com um destino comum a realizar”.

É um fenômeno comum o desgaste de governos e correntes políticas pelo mundo, exemplo disso no Brasil é a geração que cresceu tendo presenciado o PT por 13 anos no poder. Para os defensores da alternância partidária, um longo tempo no poder fragiliza a democracia. Talvez os movimentos que pedem a restituição da monarquia, além dos argumentos já mencionados, têm nessa teoria alguma esperança para tal fato. O que podemos tirar dessa tragédia contra a república -onde somos convocados a dar nossa contribuição para o bem comum- é apenas o caráter cômico, mas com a prudência para não evoluirmos para situações como as que vivemos atualmente no Brasil.

Referências:

BEZERRA, Juliana. República. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/republica. Acesso em 03/09/20.

CANCIAN, Renato. Império – Segundo Reinado (1840-1889) – Pedro 2º e pacificação. Disponível em: https://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia-brasil/imperio—segundo-reinado-1840-1889-pedro-2-e-pacificacao.htm?cmpid=. Acesso em 01/09/20.

FELLET, João. Monarquistas ocupam cargos em Brasília e reabilitam grupo católico ultraconservador. BBC, São Paulo, abril de 2019. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47728267. Acesso em 31/08/20.

GUTIERREZ, Wagner. POR QUE A MONARQUIA CAIU NO BRASIL?. Aventuras da História, novembro de 2019. Disponível em:https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/almanaque/historia-por-que-a-monarquia-caiu-no-brasil.phtml. Acesso em 01/09/20.

QUADROS, Marcos Paulo dos Reis. Conservadorismo Coroado: movimentos monarquistas no Brasil atual. Disponível em:http://bibliotecadigital.tse.jus.br/xmlui/bitstream/handle/bdtse/4580/2017_quadros_conservadorismo_coroado_movimentos.pdf. Acesso em 03/09/20.

SCHWARCZ, Lilia Moritz (1998). As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos 2° ed. (São Paulo: Companhia das Letras).