
por Silvia Pinheiro
Nas últimas eleições, por diversas vezes, me questionei sobre as razões que levam uma pessoa a apoiar um candidato ou um partido que defendem políticas, ações e ideias tão avessos às suas demandas e necessidades, as quais não se restringem ao âmbito econômico. Envolvem também aspectos sociais, culturais e étnicos. Em junho de 2013 o brasileiro foi às ruas reivindicar melhorias nos serviços públicos e nas suas condições de vida. Pouco tempo depois elegeu um governo defensor do Estado mínimo e de políticas neoliberais. Como uma população, cujo uma parte significativa possui rendimentos abaixo do necessário para o suprimento de suas necessidades básicas como saúde, educação e moradia, colocou o poder nas mãos de quem não possui o menor apreço pelo que é público e orienta suas ações e políticas ao desmonte dos direitos sociais e trabalhistas? Seria a ignorância, o conhecimento raso sobre a realidade ou o analfabetismo político as razões que explicam tamanhas contradições? Podem, em parte, assumir um papel importante nesse processo. Entretanto, há outros aspectos que precisam ser considerados.
A análise sobre a formação social e econômica brasileira nos fornece algumas respostas para as dúvidas supracitadas. O Brasil desenvolveu-se sobre uma estrutura escravocrata, patriarcal, profundamente desigual e racista. Todos esses elementos exercem uma forte influência sobre os mais variados grupos que compõem nossa sociedade. Não se trata apenas de uma elite branca explorando e discriminado pobres e negros. Consiste também no ódio ao pobre pelo pobre, do machismo entre mulheres, da negação do racismo pelo próprio negro, entre outros exemplos.
Para explicar essa dinâmica contraditória é essencial observar o papel da ideologia. Não é o objetivo aqui aprofundar as análises acerca do conceito, considerando sua complexidade, mas estabelecer a relação entre os paradoxos da sociedade brasileira e a função da ideologia.
Segundo Eagleton (1997, p.13):O estudo da ideologia é, entre outras coisas, um exame das formas pelas quais as pessoas podem chegar a investir em sua própria infelicidade. A condição de ser oprimido tem algumas pequenas compensações, e é por isso que às vezes estamos dispostos a tolerá-la. O opressor mais eficiente é aquele que persuade seus subalternos a amar, desejar e identificar-se com seu poder; e qualquer prática de emancipação política envolve portanto a mais difícil de todas as formas de liberação, o libertar-nos de nós mesmos.
Mas o outro lado da história é igualmente importante. Pois se tal dominação deixar, por muito tempo, de propiciar suficiente gratificação a suas vítimas, então estas com certeza acabarão por revoltar-se contra ela. Se é racional acomodar-se a uma mistura ambígua de sofrimento e prazer marginal, quando as alternativas políticas mostram-se perigosas e obscuras, é também racional rebelar-se quando o sofrimento ultrapassa em muito as gratificações, e quando tal ação parece encerrar mais ganhos do que perdas.
