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por Jonas Ribeiro

A última semana de março trouxe uma boa notícia do epicentro do coronavírus na China. A província de Hubei, que registrou até esse momento 67.803 casos do covid-19, passou mais de cinco dias sem transmissão local da doença e as autoridades chinesas se preocupam agora em barrar a importação do novo vírus. Segundo a revista “Science”, há um indicativo de que as medidas que foram adotadas no início da doença foram bem sucedidas para quebrar a cadeia de transmissão e impediu o contato entre pessoas com o vírus e outras suscetíveis a ele. Portanto, a China passou em pouco tempo, de local onde surgiu a doença e com milhares de casos, a exemplo de como combater a doença e ajudar outros países nessa tarefa, principalmente enviando técnicos e kits de exame.


Mas como a China conseguiu fazer isso e qual a relação disso com o tema do blog, a política?
Bem, a revista ÉPOCA, analisando relatórios da OMS, traçou algumas medidas adotadas no combate à disseminação do Covid-19. Entre eles estão: isolamento imediato do epicentro da doença, regras claras de quarentena geral e pessoal, controles rigorosos de entrada pelos aeroportos do país, checagem de temperatura em espaços públicos, controle via wechat etc.


A relação com a política, mais precisamente com o regime político do país, se dá através dosmecanismos usados para implementação das medidas mencionadas acima, medidas que abrem discussão acerca do rígido controle estatal sobre a população.Aqui é bom abrirmos um parêntese para falar sobre algumas características do Estado Chinês. Sabemos que desde a revolução de 1949, a China passou por transformações que fecharam as portas do país para o ocidente. A partir de 1978, a China começou a conviver com as bases de uma sociedade teoricamente comunista e uma abertura gradual ao mercado mas com centralização estatal. Tal abertura não abraçou aspectos sociais, como abertura política e liberdade de expressão, por exemplo. Na China de hoje, é o Estado que controla as maiores empresas do país, o sistema bancário e, apesar de existirem propriedades privadas, é ele também que teoricamente é dono de todas as terras do território. Empresas privadas, quando relevantes, devem conter membros do partido comunista. Muitos especialistas consideram o regime chinês como um “capitalismo de estado”.

Numa democracia ocidental, é possível adotar as medidas que a China usou com a mesma eficiência? Não quero discorrer sobre o regime político chinês, mas é inegável que tal regime facilitano controle do Estado se compararmos com os ocidentais. Alguns podem argumentar que nossas vidas estão nas mãos de empresas como o Google, Facebook etc. Porém, tais empresas não podem se responsabilizar no controle de uma pandemia, por exemplo. Quem faz e deve fazer isso é o Estado, e na China, aparatos de controle social se encontram nas mãos do Estado.


No caso do rápido isolamento da cidade de Wuhan epicentro da doença, não sabemos com exata precisão de que forma isso foi feito; apesar de um enorme afrouxamento na liberdade de expressão no país nos últimos tempos, os relatos ainda são censurados, como nos casos divulgados pela revista chinesa “Caijing”, que publicou um artigo denunciandoque pessoas mortas pelo coronavírus foram negligenciadas nas estatísticas oficiais por não serem atendidas nos hospitais da região.
O controle de uma quarentena geral é, sem dúvida, facilitado num país onde existem mais de 170 milhões de câmeras que vigiam os passos e os rostos de seus cidadãos. Isso é literal. Há, segundo o “EL PAÍS”, um software já em uso pela polícia de algumas províncias que permite reconhecer um cidadão pelo jeito de andar, quando o reconhecimento facial não for possível em alguns momentos. Para não deixar de citar o Brasil, alguns estados impuseram uma quarentena rígida, com fechamento de comércio e outros serviços para a população, mas sempre com uma discussão acerca da legitimidade dessas ações. As ações que visam manter pessoas em casa, é bom lembrar, é uma recomendação. A proibição de circulação de pessoas no Brasil pode acarretar em desrespeito, numa interpretação mais rígida, da Constituição do país. Voltando ao caso chinês, o aplicativo Wechat, uma espécie de Whatsapp chinês, criou uma opção que permite que usuários acessem informações de outras pessoas, sabendo por exemplo, onde foram registrados casos para evitar tais lugares. A Rússia, simpatizante do modelo estatal chinês, embora numa escala ainda bem menor, pretende colocar em prática um modelo de rastreamento que identifica quem entrou em contato com um infectado e informa sobre a necessidade de isolamento. Isso seria possível a partir de informações trocadas pelas operadoras de celulares e governo russo. A partir da informação através da localização das pessoas com coronavírus, outras que tiveram contato de alguma maneira com infectados seriam avisadas por mensagens de texto.


A rápida recuperação da China no combate ao Covid-19 abre também a discussão sobre até onde as ações de contenção da doença pelo Estado entram em conflito com liberdades individuais. A proibição de circulação de pessoas, controle de fronteiras ou monitoramento de cidadãos podem e devem ser considerados em situações como a que vivemos. Mas é preciso tomar cuidado para que entusiastas de regimes autoritários não usem tais ações para perpetuação de privações de direitos, principalmente em países tidos como democráticos.