Por Jonas Ribeiro
Em março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) através do diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom declarou que a disseminação do novo coronavírus (Sars-Cov-2) se tornou global, caracterizando dessa forma, uma pandemia. Em outras palavras, a contaminação passou de seu epicentro, a cidade de Wuhan, na China e se alastrou pelo mundo sustentando uma cadeia de transmissão pelo vírus. À época, este blog abordou o tema e discutiu as medidas do governo chinês para contenção do surto da doença e as ações paralelas do ocidente. Não previmos, porém, que ao passar dos meses a situação do novo coronavírus desencadeasse em uma atualização sobre o entendimento da doença e suas consequências. A Covid-19 foi para além da transmissão viral e interagiu com uma série de doenças não transmissíveis aumentando a suscetibilidade de pessoas de modo a impactar na sua saúde.
É o que aponta artigo de Richard Horton, editor chefe da revista científica Lancet, uma das mais respeitadas do mundo. O artigo, publicado em setembro de 2020, aponta que até aquela altura, todos os esforços estavam sendo concentrados no corte da transmissão viral, desconsiderando, portanto, a interação da doença que resulta no agravamento de fatores sociais e ambientais potencializados pelos efeitos negativos dessa interação. Diante desse cenário, Horton sustenta que o coronavírus causou, não uma pandemia, mas uma sindemia.

Sindemia é uma junção das palavras sinergia e pandemia que procura explicar as consequências danosas da interação de duas ou mais doenças para as pessoas e a sociedade.
O termo teve origem nos anos 1990 pelo médico estadunidense Merril Singer que procurou entender a relação de doenças, abuso de substâncias e as disparidades sociais. Nesse entendimento Richard Horton argumenta:
Duas categorias de doenças estão interagindo dentro de populações específicas – a síndrome respiratória aguda severa (Sars-Cov-2) e uma série de doenças não transmissíveis (DNTs). Estas condições estão se agrupando dentro de grupos sociais de acordo com padrões de desigualdade profundamente enraizados em nossas sociedades. A agregação dessas doenças em um contexto de disparidade social e econômica exacerba os efeitos adversos de cada doença separada.
HORTON (2020)
No Brasil, a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN) elaborou um inquérito sobre os desdobramentos desse contexto de sindemia no país. Segundo o relatório, a insuficiência de renda associada à precarização das relações de trabalho resultou na intensificação da doença nos grupos mais populacionais mais vulneráveis. Nos três meses anteriores à coleta de dados, em dezembro de 2020, verificou-se que 55,2% da população brasileira vivia em insegurança alimentar, destes, 9% conviviam com a fome. Há muito não se falava de fome no Brasil, e este cenário está associado ao agravamento da crise pelo coronavírus. Dentre as famílias que solicitaram o auxílio emergencial, havia um número três vezes maior do que a média nacional de insegurança alimentar. A Covid-19 impactou diretamente nos níveis de insegurança alimentar e consequente desigualdade social. O resultado do relatório indica a volta da insegurança alimentar nos níveis próximos do ano de 2004. Ou seja, com a sindemia da Covid-19, regredimos quase 20 anos na luta contra a desigualdade social e contra a fome no país. Em suma, o inquérito garante:
“Este quadro permite concluir que vivemos o que tem sido considerado como uma sindemia, englobando tanto os impactos da crise sanitária que afetam todas as dimensões da vida em sociedade como também os determinantes da Insegurança Alimentar situados no aumento da pobreza em paralelo à maior concentração de renda e riqueza entre os segmentos sociais mais ricos. “
Referências:
DW: Sindemia? Covid-19 pode ser mais que uma pandemia. Disponível em: https://www.actbr.org.br/post/sindemia-covid19-pode-ser-mais-que-uma-pandemia/18654/
GUIMARÃES, K. C; PINHEIRO, S. S. M. O desgoverno Bolsonaro e o novo Coronavírus:Uma análise preliminar sobre o impacto social dessa combinação no Brasil. Disponível em: https://www.periodicos.unimontes.br/index.php/sesoperspectiva/article/view/3347/3514
G1:OMS declara pandemia de coronavírus. Disponível em:https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/03/11/oms-declara-pandemia-de-coronavirus.ghtml
HORTON. Richard. Offline: COVID-19 is not a pandemic. The Lancet. Vol 396. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)32000-6/fulltext#:~:text=COVID%2D19%20is%20not%20a%20pandemic.,the%20health%20of%20our%20communities.
Rede PENSSAN. Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil. Disponível em: https://pesquisassan.net.br/olheparaafome/



