


O escritor russo Liev Tolstói (1828-1910) deixou grande contribuição para a literatura mundial com obras como “Guerra e Paz”, “Ressurreição” e “Anna Kariênina”, esta última de maior interesse para este texto por tratar, entre muitos assuntos, do conceito de trabalho no sentido de dignificação e propósito para a vida. Esse conceito nos interessa porque é trazido à obra por Tolstói através do personagem Konstantin Liévin, um alter-ego do autor. Em certo momento de sua vida, Tolstói começou a questionar seu modo de vida, a aristocracia russa e se aproximou dos camponeses e seu estilo de vida. Segundo o autor, uma vida digna baseava-se em “trabalhar, resignar-se, suportar e ser misericordioso”. Em ”Anna Kariênina”, o personagem Liévin, assim como Tolstói, se dedica durante muito tempo a sua propriedade no campo, aos camponeses e ao trabalho enquanto busca uma “verdade” para sua vida. Essa “verdade” e consequentemente sua satisfação pessoal só é alcançada após o casamento com seu grande amor, Kitty, aliado com a vida de trabalho na sua propriedade que Liévin já possuía. A percepção de que a junção amor e trabalho lhe trouxe satisfação pessoal Liévin só teve no fim do livro, embora existisse em si, um orgulho na sua dedicação ao trabalho e ao campo que, podemos dizer, aprendeu com os mujiques e os admirava por esta razão. O orgulho de Liévin está ligado ao seu entendimento do papel do trabalho na formação da dignidade do Homem e sua utilidade prática.
“Para Konstantin Liévin, o campo era o lugar onde se vivia, ou seja, um lugar de alegria, de sofrimento e de trabalho. Ele era bom porque representava a oportunidade de um trabalho incontestavelmente útil.”
Tolstói (2013)
A visão de Liévin se baseia basicamente na visão moderna do trabalho na nossa sociedade e foi evidenciada pelo filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Uma parcela da filosofia de Hegel e sua percepção sobre o trabalho procurou superar a visão individualista e mecanicista do Homem trazida pelos contratualistas John Locke e Thomas Hobbes e a ideia de atividade inferior do trabalho difundida na Grécia pelos filósofos antigos. Aristóteles definia o trabalho físico como meramente manual, apenas de sobrevivência. Nas sociedades antigas o trabalho físico era considerado um fardo. Em seu significado grego, trabalho remete a esforço, fadiga, punição. Era um impeditivo ao ofício do pensamento, do logos. Hegel, por sua vez, definia o trabalho como uma categoria filosófica que tem dimensão constitutiva do ser humano. A relação do sujeito com o objeto resulta na formação do primeiro como ser humano através da mediação do trabalho. Enquanto transforma a natureza, o Homem desenvolve sua consciência, cultura, linguagem e sua ética. Hegel foi o primeiro a evidenciar o valor social do trabalho, ele fundiu o trabalho físico com a atividade do logos de Aristóteles e concebeu seu papel na transformação do ser humano.



Você sabe que o capital oprime o trabalhador e os nossos trabalhadores, os mujiques, suportam todo o peso do trabalho e são colocados numa tal situação que, por mais que trabalhem, não conseguem sair da condição de bestas de carga. Todos os proventos do salário, com os quais poderiam melhorar sua condição, proporcionar a si mesmos algum lazer e, em consequência, obter alguma instrução, todo o dinheiro que sobra lhes é tirado pelos capitalistas. E a sociedade está organizada de tal modo que, quanto mais eles trabalhem, mais os comerciantes e os senhores de terra enriquecerão, enquanto eles serão sempre as bestas de carga. E este regime precisa mudar.
Nikolai Liévin, “Anna Kariênina” (2013).
O irmão de Konstantin Liévin, Nikolai, era crítico do sistema capitalista e, consequentemente, da situação do trabalhador russo da cidade e do campo. Ao contrário de seu irmão Konstantin, Nikolai não via o trabalho como dignificante ou transformador. Para ele, recaía sobre o trabalhador o aspecto físico que sugava sua força de trabalho e transformava em lucro para os capitalistas. Essa visão, exposta na citação acima é amparada no conceito de trabalho do sociólogo alemão Karl Marx. Marx é um dos maiores críticos do sistema capitalista industrial e sua obra fornece até hoje um suporte teórico para as transformações e evolução do mundo social.
Assim como as ideias dos irmãos Konstantin e Nikolai Liévin em “Anna Kariênina” sobre o trabalho são opostas, podemos contrapor também seus influenciadores: Hegel e Marx.
Marx reconhece que Hegel conseguiu captar as nuances do trabalho e seu valor social, mas a diferença de seu pensamento se dá principalmente na alienação do trabalhador causada pela distorção do trabalho pela sociedade burguesa. Como citado no texto acima, Hegel entendia o trabalho como uma mediação entre o sujeito e o objeto tranformando a natureza e seu espírito. Marx concordava, mas sua crítica se baseava na ideia de que Hegel reconhecia, em suas palavras, ”apenas a face positiva do trabalho”:
Hegel coloca-se do ponto de vista dos modernos economistas nacionais. Ele
Marx (2004)
apreende o trabalho como a essência, como a essência verdadeira do homem: ele vê
somente o lado positivo do trabalho e não seu lado negativo. O trabalho é o vir a ser
para-si do homem dentro da exteriorização ou enquanto homem exteriorizado. O
trabalho que Hegel conhece e reconhece é o trabalho espiritual .
Para Marx, Hegel ignora as contradições do trabalho transformador do ser humano e a acumulação de capital aliada a exploração do trabalho. Ignora também a distorção que, segundo Marx, o objeto causa no trabalhador através da alienação. Em “Anna Kariênina”, Konstantin Liévin, um senhor de terras, vê no trabalho um meio de autotransformação enquanto seu irmão Nikolai consegue perceber a exploração dos mujiques e trabalhadores da cidade e pretende implantar uma experiência de divisão de lucros e propriedade comum entre serralheiros.
Na contemporaneidade pretende-se dar ao trabalho um sentido de pertencimento à sociedade, principalmente pela contribuição econômica através da força de trabalho. Acrescenta-se, porém, a necessidade de subsistência das camadas trabalhadoras na sociedade capitalista. Sem esse acréscimo, a face positiva do trabalho de Hegel discutida de forma sucinta nesse texto é exclusiva das camadas abastadas da sociedade, sendo portanto, estilo de vida repassada à classe trabalhadora como resultado de uma visão empreendedora. Mas essa discussão pretendo deixar para um texto futuro.
Referências:
GABRIEL, Ruan de Sousa. Quando Tolstói quis se matar. Época, março de 2017. Disponível em:https://epoca.globo.com/cultura/noticia/2017/03/quando-tolstoi-quis-se-matar.html. Acesso em: 12/11/20.
MARX, Karl. Manuscritos Econômicos Filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004.
SCHAFER, Márcio. O Conceito de trabalho na filosofia de Hegel e alguns aspectos de sua percepção em Marx. Disponível em: http://tede2.pucrs.br/tede2/handle/tede/2887. Acesso em 22/11/20.
SEMERARO, Giovanni. A Concepção de “trabalho” na filosofia de
Hegel e de Marx. Disponível em: http://www.seer.ufu.br/index.php/EducacaoFilosofia/article/view/14991. acesso em: 17/11/20.
TOLSTÓI, Liev. Anna Kariênina. São Paulo: Cosac Naify, 2013.
